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UFC (Ultimate Fight): a celebração da estupidez humana

No dia 23 de junho de 2012 foi realizado no Ginásio do Mineirinho, em Belo Horizonte, o UFC 147. Ginásio lotado e a torcida vibrante com o desenrolar da pancadaria no octógono. Pensei comigo: Por que tanto entusiasmo? Por que tanta divulgação da mídia? Por que tantos jovens empolgados com o evento? Por que a transmissão das lutas teve tanta audiência? Por que na farmácia, na padaria, nos bares e restaurantes não se falava em outra coisa? Só encontrei uma resposta: Aquelas pessoas queriam celebrar a estupidez humana.


Eu, que trabalho da linha de frente da educação básica brasileira, sei o quanto os professores sofrem diariamente para tentar desenvolver dentro das escolas a Cultura da Paz. Nós realizamos projetos para combater o bullying, para aproximar a família da escola, para desenvolver a consciência ambiental, para promover o respeito aos animais, para colocar em prática ações de solidariedade. Enfim, tentamos internalizar nas crianças e adolescentes valores que permitam compreender que viver em sociedade é respeitar o próximo, ajudá-lo quando possível e necessário e, sobretudo, ter amor à vida, preservando a nossa integridade física e psicológica, bem como a daqueles que estiverem ao nosso lado. Mas quando vejo um público tão considerável vibrar com estrangulamentos, socos, chutes, cotoveladas e joelhadas na cara e na nuca sinto-me impotente, fico estarrecido, decepcionado, embasbacado com os rumos de nossa sociedade.
A minha esperança é de que a criança encontre outros modelos, outras referências, outras balizas que permitam construir um mundo menos selvagem, menos agressivo, menos estúpido, menos ensandecido. Minha preocupação se justifica pelo medo de encontrar no caminho estes homens e mulheres no Estado de Natureza Hobbeseano, em constante estado de guerra. Guerra de todos os homens contra todos os homens. Uma guerra permanente onde predomina a lei do mais forte. Um Estado em que a prática corriqueira é impor sobre o próximo a morte violenta. Um Estado em que não existe esperança no dia seguinte. Uma sociedade na qual é preciso se antecipar aos movimentos para permanecer vivo. Um cotidiano em que o homem é o lobo do próprio homem. Onde ficou a razão? O que aconteceu com a sensibilidade? 

Sou de um tempo em que quando ocorria uma briga a gente corria para separar. Hoje as pessoas pagam para assistir. Infelizmente se esta trajetória não for invertida as futuras gerações irão reproduzir a violência (quase sem limites) do UFC em todo o tecido social. Você tem dúvida? Então observe os carros bomba, motos bomba, carretas bomba explodindo todo dia, em cada esquina, em cada rua, em cada curva no Brasil. Observe também o Crack marcando gols de placa no consumo de drogas, destruindo a vida de nossos jovens.

Tudo isso me faz sentir como um sonhador, imaginando e acreditando que um dia viveremos em um mundo em paz. Mas neste mundo em que vivemos quase sempre os pacifistas são estupidamente mortos. E ainda há quem diga que os praticantes dessa coisa “dita” esporte são os gladiadores do século XXI. Os gladiadores eram escravos, portanto, não tinham acesso à liberdade. Além disso, eles não tinham escolha, lutavam pela preservação da própria vida. Quem admite violências como as do UFC perceberá como algo comum e trivial todas as demais agressões praticadas em nossa sociedade. E não se assustem com cenas de crianças se espancando na hora do recreio encenando golpes de luta (tais como joelhadas na cara do coleguinha) e depois dizendo que tudo não passa de uma brincadeira. Ultimate é a estupidez humana.